
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou acreditar que já existe maioria suficiente entre os 27 países da União Europeia para assinar o acordo com o Mercosul dentro de três semanas, embora reconheça que ainda há ajustes a serem concluídos no bloco.
“Sim, estou confiante de que temos a maioria suficiente, mas ainda há trabalho a fazer com os Estados-membros”, declarou às 4h da manhã desta sexta-feira, durante entrevista coletiva de balanço da reunião do Conselho Europeu. “Após 26 anos de negociações, um atraso de três semanas é, na minha opinião, tolerável. É fantástico que estejamos caminhando para a conclusão do acordo”, acrescentou.
O presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, adotou tom semelhante. “Não gosto de estar aqui às 4h da manhã, mas gosto do fato de que agora, após 26 anos de negociações com o Mercosul, concordamos em assinar não no sábado, mas três semanas depois”, afirmou. Em tom descontraído, comentou que “o mundo não perde muito com essas três semanas depois de 26 anos”, destacando a unidade europeia apesar das diferenças internas.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, confirmou que a União Europeia já dispõe da promessa de uma maioria qualificada para aprovar a assinatura do acordo. Segundo ele, a expectativa era sair da reunião com o sinal verde imediato, mas a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, solicitou duas semanas adicionais para conduzir debates internos com seu governo e o Parlamento italiano, a fim de superar divergências.
Merz observou que, após oito anos do acordo com o Canadá, o comércio bilateral cresceu 50%, com benefícios para ambos os lados.
O presidente francês, Emmanuel Macron, por sua vez, alertou que ainda é cedo para afirmar se um adiamento de um mês será suficiente para atender às condições impostas pela França. Ele defende o endurecimento de regras para barrar importações agrícolas do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, exigindo que os produtos sul-americanos cumpram os mesmos padrões impostos aos produtores europeus. Para Macron, isso transformaria o pacto em um “novo” acordo, argumento visto como uma tentativa de demonstrar força política interna, apesar de a França parecer cada vez mais isolada.
Produtores agrícolas europeus afirmam que as salvaguardas propostas pela União Europeia continuam insuficientes para evitar distorções no mercado, não garantem condições equitativas de concorrência diante das diferenças regulatórias e não oferecem garantias adequadas aos agricultores e fabricantes europeus, que já operam sob regras mais rigorosas.
As reuniões de líderes da União Europeia foram marcadas por tensão e protestos. Cerca de 10 mil agricultores e mais de 150 tratores ocuparam as ruas de Bruxelas. Representantes do setor agrícola foram recebidos antes do encontro e deixaram claro que “a luta continua”.
Após longas discussões sobre o financiamento da Ucrânia para resistir aos ataques da Rússia, os líderes dos 27 Estados-membros passaram a tratar de temas de geoeconomia, incluindo o acordo com o Mercosul.
“Esta noite, alcançamos um avanço decisivo para abrir caminho à conclusão bem-sucedida do acordo em janeiro”, afirmou Ursula von der Leyen. Segundo ela, serão necessárias mais algumas semanas para resolver questões pendentes com os Estados-membros, motivo pelo qual a assinatura foi levemente adiada em comum acordo com os países do Mercosul.
A presidente da Comissão Europeia reiterou que o acordo é de “importância crucial para a Europa, em termos econômicos, diplomáticos e geopolíticos”, ao ampliar oportunidades comerciais para os Estados-membros. Ela destacou ainda que, com controles e salvaguardas adicionais, a União Europeia incorporou todas as proteções necessárias para agricultores e consumidores.
Von der Leyen observou que, em um ano marcado pelo aumento de tarifas e novas restrições comerciais, o impacto positivo do acordo é relevante não apenas para as duas regiões, mas também para a economia global.
Entre negociadores do Mercosul, contudo, persiste um sentimento de frustração com o adiamento. O argumento europeu de proteção agrícola é visto como frágil e simbólico. Salvaguardas só fariam sentido em caso de ampla desgravação tarifária, o que não ocorre para os principais produtos do bloco sul-americano. Também são considerados exagerados os temores em torno de cotas consideradas muito baixas, como a de 99 mil toneladas adicionais de carne bovina, o que representaria cerca de 200 gramas por ano por habitante europeu.
Na madrugada em Bruxelas, Ursula von der Leyen relatou que, ao início da reunião, não havia um caminho claro nem para o acordo com o Mercosul nem para o financiamento da Ucrânia. “Por volta das 4h da manhã, no entanto, foram feitos progressos que garantiram um caminho claro para o Mercosul e 90 bilhões de euros em financiamento para a Ucrânia nos próximos dois anos”, comemorou.
Fonte: Datamarnews
